Vida minimalista

Sobre a relação entre você e as suas coisas

E se suas roupas, sapatos e acessórios não fossem apenas itens de vestuário mas sim, expressões de quem você é e como quer transitar pelo mundo? E se os eletrodomésticos que você tem na cozinha não fossem apenas funcionais mas sim um retrato de como você se relaciona com o ato de cozinhar? E se cada objeto que você compra não fosse apenas um aquisição interessante indicada por alguém que também comprou mas sim expressassem aquilo que dá suporte ao estilo de vida que mais te satisfaz?

E se a sua filosofia de vida e as coisas que você possui fossem dois aspectos intimamente conectados?

Essa ideia parece ser muito abstrata para você? Então continua comigo nesse texto.

O ano era 2006. Ou 2007. Bom, eu estava no ensino médio, em uma escola de ensino integrado ao técnico, a uma lotação e uma baldeação de metrô de distância da minha casa. 

Era meu aniversário e as minha amigas tinham feito uma vaquinha pra me presentear com um MP3 –  o auge da tecnologia na época, perdendo apenas para um iPod.

Eu fiquei super feliz com o presente e depois me senti um pouco estranha. Primeiro, me senti amada pelas minhas amigas ricas, que não eram tão ricas assim na visão delas, que mesmo estudando em período integral e, exatamente por isso, sem um emprego, conseguiram se programar pra comprar um presente legal para uma amiga querida. 

Depois, me senti pobre. A amiga pobre que não ganhava mesada, que dormia numa beliche na sala com o irmão e precisava economizar o dinheiro contado que recebia dos pais para o almoço e o lanche na escola se quisesse comprar uma pulseirinha.

E que jamais conseguiria comprar um MP3, a não ser que parasse de comer na escola por 6 semanas.

Dito isso, nem preciso te convencer que quando eu comecei a trabalhar e ter meu próprio dinheiro que me permitiria planejar meus próprios gastos eu não planejei coisa nenhuma, só corri atrás do prejuízo loucamente, comprando tudo o que me dava na telha.

Casei com alguém que viveu uma situação similar e agora éramos dois gastadores, justificando as compras constantes e ás vezes sem necessidade com o fato de termos sido os amigos pobres na adolescência.

É curioso lembrar como a nossa cabeça adolescente funciona. Hoje que sou mãe, sinto na pele o esforço que nós pais fazemos para fazer o dinheiro dar e suprir as necessidades da família toda, e como temos que tomar decisões que nem sempre são agradáveis para os filhos para garantir o que é melhor para todos no momento.

Continuando, essa mentalidade gastadora que eu compartilhava com meu marido foi resultando em mais e mais cacarecos em casa até que isso teve que acabar, por força do destino – que eu prefiro pensar que foi apenas a força da vida buscando o tão saudável equilíbrio.

Nós perdemos o emprego, a casa e ganhamos uma filha. Fomos morar com meus sogros e eu não vou entrar em detalhes sobre isso porque tenho uma série com alguns posts aqui no blog relatando tudo o que aconteceu, conforme aconteceu.

Mas o fato é que eu tive que fazer escolhas sobre as minhas posses, nós dois tivemos. Morando com meus sogros, o único espaço que não era uma área comum de todos nós era o quarto em que estávamos. Era o único cômodo que me dava autonomia para tomar decisões sobre decoração e organização. Minha casa particular era agora um quarto.

Então, cada peça de roupa, cada eletrodoméstico e cada objeto, grande ou pequeno, precisava ter um motivo muito forte para estar lá, ou então a gente ia ser ver num local abarrotado de coisas, sem espaço para viver nele.

E foi aí que a ideia de que o que nós temos reflete quem nós somos e que os dois aspectos estão fortemente conectados começou a se formar na minha cabeça. 

Já falei com você sobre como cada coisa que a gente tem pode trazer uma porção de tarefas consigo só pra se manter e que isso demanda tempo, dinheiro e energia, né?

O que eu fui percebendo, é que é bem por aí que a banda toca mesmo.

Eliminar coisas quebradas da nossa vida é só um pequeno passo. Escolher adquirir coisas de qualidade é apenas outro passo. A raiz da questão é olhar para si antes de desapegar ou comprar e se perguntar: qual o papel que esse objeto exerce na vida da pessoa que quero ser?

Não importa quanto custou, o que importa é o quanto o custo de um objeto tem relevância pra cada um.

Não importa quem te presenteou com esse objeto mas sim, o quanto essa pessoa, e a troca de presentes, tem relevância para cada um no momento presente. 

Nada importa tanto quanto a reflexão sobre o papel que esse item tem na sua vida. Hoje.

A nostalgia do passado por si só não é suficiente. Ela precisa dar as mãos para a sua vida atual para fazer sentido.

O medo de faltar no futuro não é o bastante. Ele precisa ser encarado como uma simples cautela, e dar as mãos para as suas metas para que então faça sentido manter alguma coisa na sua vida.

Sua casa é uma extensão de você.

Agora, sempre tem um grupinho de itens que acabam entrando na categoria “não sei bem o que fazer com isso então deixa aí que eu penso depois”. Em relação a esses, te deixo um alerta em forma de perguntinha marota sobre uma lição que eu aprendi do jeito mais difícil: 

Sabe qual a semelhança entre tomar decisões com mais convicção e a procrastinação?

Ambos são resultados de muita prática.

Quanto mais você procrastina, independente do motivo da procrastinação, mais você pratica esse hábito e mais natural ele vai se tornando pra você.

Da mesma forma, quanto mais você se obriga a tomar decisões, apenas pelo ato de parar o que está fazendo observar e refletir, mais você exercita a tomada de decisões e mais fácil isso vai se tornado pra você.

Lembre-se disso da próxima vez que você se sentir inclinada a colocar um apoio de celular que você não usa mais de volta na gaveta porque ele é muito bonitinho e você não sabe o que fazer com ele. Você pode estar inocentemente alimentando seu hábito de procrastinar.

Então, principalmente se você tem dificuldades para tomar decisões, considere observar com carinho para cada item que existe na sua casa e praticar o ato de fazer escolhas conscientes aí, no mundo das coisas materiais, o mais simples de todos para praticar o desapego, e escolha se cercar do que faz sentido para a pessoa que você escolheu ser.

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