ESCRITA AFETIVA

Sobre academias e bons motivos

Por que é que fazer academia parece ser tão fácil para algumas pessoas e tão difícil para outras – no caso, eu?

Minha família sempre me pareceu muito inclinada aos esportes. Nas raras ocasiões em que a família toda se reunia, eu ouvi as histórias de um tio que foi ciclista, de outro que surfava, de uma tia que jogava vôlei pela faculdade e dos meus pais que faziam caratê.

Até meus avós praticavam seu próprio nível de atividades físicas, fazendo caminhadas na praia ou indo dançar nos bailes da terceira idade.

Então, eu sempre fui naturalmente incentivada a praticar esportes. Ou melhor, atividades físicas porque no que diz respeito ao esportes que envolvem uma bola e são praticados na aula de educação física da escola, eu poderia facilmente ser substituída por um cone.

Já nos exercícios que não precisam de um time ou uma dupla pra serem praticados, eu me saía até que bem. Na infância, fiz aulas de natação e, na época em que os grupos de axé estavam no seu auge, fiz aulas dança e sabia as coreografias completas de Vem Neném e Xibom Bombom.

Depois de um longo período sem praticar atividade nenhuma, retomei os exercícios através da corrida, quando a empresa em que eu trabalhava contratou uma equipe profissional e quase todos os funcionários começaram a correr.

Esse período foi bem bacana mas, algum tempo depois de sair da empresa, a corrida acabou permanecendo na minha vida como uma companheira que me ajudou a lidar com um momento bem difícil que eu passei.

Parei com todos os esportes novamente quando ganhei minha segunda filha e então, decidi voltar, primeiro pela hidroginástica e depois pela malhação, já que meu irmão estava empolgado e queria companhia – ou melhor, incentivo – pra conseguir acordar pra malhar pela manhã.

O que acontece é que estou há cerca de dois meses na academia e já fiquei umas três semanas sem passar nem na porta. Então, volto à minha pergunta inicial: por que é que fazer academia parece ser tão fácil para algumas pessoas e tão difícil para outras – no caso, eu?

Bom, acho que uma espécie de resposta pra essa questão tem ficado mais clara pra mim com o tempo – embora eu tenha uma consciência igualmente clara de que existe uma grande diferença entre compreender uma coisa e colocar ela em prática, mesmo que a compreensão seja o primeiro passo para a prática.

Então, e se o problema não for a academia?

E se, na verdade, fazer academia só seja mais fácil para algumas pessoas porque elas decidiram que querem fazer?

E se isso se estender para qualquer tipo de compromisso que a gente assuma para alcançar um objetivo, significando que o sucesso ou o fracasso em qualquer empreitada esteja no ato de decidir fazer, abandonando o pensamento de que pra conseguir fazer qualquer coisa, primeiro, ela precisa ser fácil pra nós? 

Acho que não é tão errado dizer que todos achamos que quem consegue fazer alguma coisa que pra nós é difícil só tem sucesso porque para a pessoa em questão, é tudo mais fácil, certo?

Mas e se o que nos impede de ter sucesso em alguma tentativa não for o nível de dificuldade, mas sim, o quanto a gente está disposto a aprender e se adaptar para alcançar um objetivo, e assim, permitir que essa dificuldade se transforme em familiaridade, o que vai tornar tudo mais fácil de fazer? 

E se o segredo do sucesso for a simples decisão de fazer acontecer?

Olha só essa história: quando eu era pré adolescente, minha mãe usava uma maquininha para se depilar que arrancava os fios pela raiz. Minha mãe se depilava tranquilamente com esse negócio, sempre que necessário, e da primeira vez que eu fui tentar usar, não consegui terminar nem meia perna, tamanha a dor que eu senti. Finalizei minha tentativa frustrada de usar a máquina de depilação com a gilete mesmo e fiquei pensando “como minha mãe aguenta tanta dor pra se livrar dos pêlos?”

O interessante é que anos depois, depois de muitas tentativas, lá estava eu usando a mesma máquina depilatória sempre que necessário, tranquila como a minha mãe, como se eu nunca tivesse julgado a dor desse processo como insuportável.

Então, será que existe uma dor que seja grande demais ou uma dificuldade que seja desafiadora demais a ponto de ser evitada a todo custo, independente do objetivo a ser alcançado?

A simples história da depilação me diz que não.

E a dor muscular depois de malhar que eu tenho certeza que acompanha todos os corpos sarados que eu encontro na academia reforçam minha teoria.

O problema não é a academia, o problema é meu motivo não ser forte o suficiente para que eu decidisse passar pela dificuldade para alcançar o corpo que quero ver no espelho.

O que nos impede de alcançar o que a gente quer não é o nível de dificuldade, é o fato de não refletir o suficiente sobre onde a gente quer chegar com o que está tentando fazer. É a falta de um motivo forte o suficiente para nos impulsionar pra frente. Definir essas coisas é tomar uma decisão de verdade.

Mas, que fique claro: o importante é ter clareza sobre as nossas decisões, sejam elas de prosseguir em um caminho desafiador ou desapegar de uma busca que, na verdade, não tem um motivo forte porque não faz sentido para a pessoa que queremos ser.

Então, e se o que nos impede de evoluir for a falta de um motivo forte o suficiente que nos faça continuar caminhando apesar das dificuldades?

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