Sobre casas antigas e os restaurantes de estrada

Quando eu era criança morava com meus pais em São Paulo enquanto minha avó Maria morava no interior.

Eu me lembro das viagens de carro com mais de 4 horas de duração para irmos visitar os parentes em Bariri e das paradas obrigatórias nos restaurantes da estrada, que pareciam adivinhar que em um dos carros que cruzava aquela estrada havia uma criança enérgica e impaciente perguntando frequentemente se “a gente já chegou?” e uma pausa na viagem seria muito bem vinda tanto para entreter essa criança quanto para dar um pequeno descanso para os pais.

Cada restaurante tinha uma atração diferente. Um tinha uma enorme gaiola com passarinhos que, na última vez que vi, já não parecia tão enorme assim, e uma fonte de pedra muito bonita .

Outros tinham lojinhas com brinquedos em madeira e um bufê de café da manhã delicioso. Cada uma das parada era tão bacana que já era esperada como parte da viagem.

Embora eu esperasse pelos atrativos dos restaurantes da estrada, fui aprender os nomes deles e ser capaz de diferenciar qual era qual somente depois de adulta, quando as idas ao interior já eram cada vez mais raras. 

Recentemente, a casa que fez parte da minha infância, que ficou marcada na minha memória como antiga e cheia de rachaduras nas paredes, foi demolida para dar lugar a construção de um lugar mais confortável, mais novo, mais moderno: a nova cada da minha avó.

Ainda não tive a chance de visitar a casa nova pessoalmente, apenas através de tour virtual feito no meio da pandemia, mas até pelas fotos é um pouco engraçado olhar aquela esquina e ver uma construção totalmente diferente da que eu frequentei na infância.

Eu me lembro de um quintal gigantesco, que terminava em uma horta com direito a bananeiras carregadas que, ironicamente, nunca me deram uma banana para experimentar.

Me lembro do muro baixo e espesso, que fazia parte das minhas macaquices de criança, que contava com um portão baixo para os carros e os resquícios do que um dia foi o portão para as pessoas.

Me lembro da varandinha com cadeiras de fio colorido que já tinham arrebentado em alguns pontos e marcavam a pele da coxa dos ocupantes adultos que esqueciam da vida sentados ali, jogando conversa fora e assistindo as crianças brincarem.

Me lembro do sofá rasgado, das rachaduras no teto da sala, da única televisão de tubo da casa, na sala, que exibia o noticiário e as novelas para a família que se reunia depois do jantar.

Me lembro também da cama com colchão de molas que rangia quando a gente se mexia a noite e da luz que era comandada por um interruptor suspenso acima da cama que eu achava muito chique na infância. 

Me lembro dos móveis antigos que mobiliavam cada cômodo da casa e que pareciam ter sido parte da primeira compra dos meus bisavós quando chegaram da Itália – e talvez fossem.

Me lembro dos banhos no tanque, de correr ao redor daquela casa antiga brincando com as filhas das amigas e vizinhas da minha avó, que eu encontrava apenas algumas vezes por ano quando viajávamos para aquela cidadezinha quente e quieta.

Mas me lembro, principalmente, como a casa que fez parte da minha infância não tinha excessos. Havia apenas o necessário e isso bastou para criar memórias que sobreviveram até hoje.

O banheiro não tinha box, na cozinha não havia um fogão com acendedor automático e eu não me lembro de existir um aspirador de pó naquela casa.

Mas nada disso era necessário para que cada ambiente estivesse sempre limpo e arrumado. Não era preciso ter aparelhos eletrônicos e eletrodomésticos sofisticados para fazer as coisas mais rápido e ganhar tempo. Em Bariri, parecia que a gente sempre tinha tempo. A correria não era colocada na mala, era deixada em São Paulo antes de pegarmos a estrada.

Minha avó tinha uma máquina de costura antiga, daquelas que são fixadas em uma mesa e tem um pedal que precisa ser constantemente acionado com o pé para que a máquina funcione, e eu cresci usando roupas da grife da dona Maria. 

Minha avó era engenhosa, dava um jeito de fazer de tudo um pouco. Mas o que mais me chamava a atenção era como ela era capaz de enxergar soluções quando parecia não haver jeito. 

Me lembro de um dia, quando ela morava conosco em São Paulo para cuidar de mim e do meu irmão pequeno enquanto meus pais trabalhavam, que o bujão de gás acabou no meio da preparação do almoço. Minha avó pegou um prato fundo, encheu de álcool e tacou fogo com um fósforo para acabar de aquecer a comida. Seguro? Talvez nem tanto. Mas almoçamos naquele dia, mesmo sem gás.

A vida nem sempre se desenrola como a gente idealiza e dona Maria aprendeu a ler e escrever na terceira idade, depois do divórcio, quando voltou a morar com os irmãos no interior de São Paulo, naquela casa que já não existe mais. Ela encontrou uma forma de manter o fogo aceso, mesmo quando o gás acabou. 

Foi observando essa simplicidade engenhosa que se estendeu da casa para a vida – ou da vida para a casa – que eu aprendi, sem nem me dar conta, a ser mais simples e engenhosa também. Dizem que o fruto não cai muito longe da árvore e, quando eu estava escrevendo esse texto, percebi que o que escolhi como profissão hoje tem influência da minha avó. 

Assim como aconteceu com a minha vó, minha vida não se desenrolou exatamente como eu idealizei, mas eu tenho aprendido que existe uma leveza e uma beleza em aceitar a jornada como é ao invés de se sentir mal por ela não ser como a gente acha que deveria ser. Afinal, foram casas antigas sem portão e falta de gás de cozinha na hora do almoço que pavimentaram o caminho que me trouxe até onde estou hoje e eu não gostaria que nada tivesse sido diferente.

Sobre cachorras e sonecas

Observar minhas cachorras dormindo me traz uma paz automática, do tipo que não exige que eu me coloque conscientemente em um estado de calma para me livrar do estresse, simplesmente acontece.

Tenho duas Shih Tzu, Pepa e Nina, que depois de 10 anos de vida, ainda dormem como quando eram filhotes, ás vezes em posições engraçadas que me fazem pensar que resultariam uma bela dor nas costas se elas fossem humanas.

Quando meu marido e eu decidimos ter cachorro em casa, nós tínhamos uma premissa em mente: que fossem duas. Na época, nós morávamos em uma kitnet no centro de São Paulo e a gente sabia que um cachorro só iria se sentir solitário no apartamento durante o dia enquanto nós dois  estávamos no trabalho. 

Então, pegamos duas, irmãs, da mesma ninhada.

E como um bom casal que estava começando a aumentar a família pelos animais de estimação, nos tornamos pais de cachorro. E como bons pais de cachorro, gastávamos quase todo o nosso salário com petiscos, brinquedinhos, acessórios para alimentação, tapetinhos e caminhas, dentre outros cacarecos.

Quanto a hora do sono, elas tiveram coisas das mais variadas. Tapetinhos com desenhos temáticos, maleta de transporte toda almofadada por dentro e por fora que deveria servir como casinha também e camas para cachorro, propriamente ditas.

O mais interessante é que elas nunca se importaram com nada disso.

Os tapetinhos acabavam virando banheiro e porta-vômitos com o tempo, as maletas de transporte foram o símbolo mais volumoso de dinheiro desperdiçado que já tivemos, e as camas nunca eram usadas para dormir, apenas para o mesmo propósito dos tapetinhos.

E isso me faz lembrar que, quando nós pegamos nossas cachorrinhas, minha sogra, que também era mãe de cachorro, nos garantiu que os cachorros não costumam fazer suas necessidades perto de onde dormem. Me faz rir até hoje a audácia das nossas cachorrinhas em contrariar os costumes da própria espécie, considerando que minha sogra estivesse certa quanto a isso, claro.

Nossas peludinhas sempre gostaram de dormir no sofá, na nossa cama, em cima dos nossos sapatos ou das roupas que acabavam ficando pelo chão no final do dia. Mas o lugar favorito para dormir, sem dúvida sempre foi onde estivesse atrapalhando mais. Até hoje, se eu estiver dobrando as roupas na cama, elas querem deitar em cima das roupas. Se estivermos com a mala aberta no chão, nos preparando para uma viagem, elas escolhem tirar uma soneca ali, dentro da mala. Essa maneira delas de escolher locais para dormir criou uma piada interna entre meu marido e eu. Sempre que a gente flagra elas nesses lugares inusitados, dizemos que se não estiver atrapalhando o suficiente, não está bom o suficiente.

Agora, aqui no sofá, escrevendo esse texto e observando minhas cachorrinhas dormirem, uma no tapete da sala e a outra nos bichinhos de pelúcia das crianças, eu senti novamente essa paz automática e comecei a pensar sobre a simplicidade que sempre existiu nelas.

Elas nunca precisaram das coisas para uma boa soneca. Tapetinhos, acessórios, camas, nada disso tinha valor para elas. Seus lugares favoritos para cochilar sempre foram aqueles que estivessem mais perto de algum membro da família. E, caso não tivesse ninguém em casa, em contato com o cheiro de algum membro da nossa matilha.

Hoje, com a chegada das crianças, ainda me surpreendo ao ver as cachorras deitadas no travesseiro das meninas, nas roupas que elas deixaram pelo chão, nos brinquedos delas.

É lindo de se ver como elas receberam as irmãs mais velhas com carinho e com se sentem tão confortáveis em contato com o cheirinho delas quanto com o meu e do meu marido.

E é inspirador perceber que, assim como as cachorras, a gente não precisa de coisas para nos sentirmos bem, nos sentirmos seguros, nos sentirmos confortáveis o suficiente para fazer aquilo que nos coloca na posição mais vulnerável possível: dormir. Precisamos apenas estar, de alguma forma, perto de quem amamos e simplesmente satisfeitos com o fato de sermos quem somos, humanos.