Perdi meu Iphone e descobri uma verdade bem inconveniente

Semana passada eu passei por uma experiência que me deixou confusa e um pouco sem rumo.

Eu passei 5 anos escrevendo no blog, no Instagram e em algumas outras redes sociais, na esperança de ensinar outras pessoas sobre a importância de desapegar de coisas, relacionamentos ou qualquer outra forma de apego que exista e eu tenho feito isso por um motivo bem específico: o apego coloca o objeto de apego em um lugar de grande importância o que tira o nosso foco do que realmente importa e pode nos fazer sofrer caso esse objeto saia da nossa vida.

E, mesmo escrevendo sobre desapego, mesmo seguindo um estilo de vida minimalista e mesmo aprendendo constantemente sobre os impactos positivos de abrir mão do apego, eu me vi apegada e me vi sofrendo.

Apesar de saber ajudar os outros a desapegar, quando chegou a minha vez, eu me deparei com uma Mila vulnerável e triste por perder um objeto.

E eu senti na pele o maior dano que o apego pode causar, a raiz de tudo o que eu aprendi e tento ensinar para as pessoas.

E o que foi que aconteceu?

Meu Iphone parou de funcionar. Sim, esse foi o objeto ao qual eu tinha tanto apego e que me trouxe tanto sofrimento, o meu celular.

Por muito tempo eu usei o celular para tudo, desde produzir conteúdo para a internet até pagar minhas contas e, por ter um computador da apple também, eu tinha uma conectividade entre celular e computador que facilitava muito a minha vida.

E então, o celular quebrou de uma forma que não seria mais financeiramente viável consertar. E para completar, eu também não tinha a grana necessária para investir em um novo Iphone, afinal, o preço desse celular aqui no Brasil é absurdamente alto.

Eu teria que me contentar com um aparelho que usasse o sistema Android com melhor custo-benefício que eu conseguisse encontrar no mercado caso eu quisesse continuar tendo um aparelho celular, embora, a verdade tenha sido que o filtro usado para encontrar um celular novo foi o preço baixo mesmo.

E foi isso que me derrubou.

Parece fútil sofrer por não poder mais ter um Iphone? É, pra mim também pareceu e foi exatamente o conflito entre achar que eu estava exagerando e achar que eu tinha razão em me sentir mal que estava me fazendo sofrer.

Mas sabe o que foi mais interessante nessa experiência?

Foi perceber que desapegar de um objeto é tão difícil porque nunca é somente sobre o objeto. Existe um significado emocional por trás que conecta esse objeto há outras coisas dentro de nós.

Perder meu Iphone não significou apenas perder um celular de muita qualidade pra mim.

No dia em que meu celular parou de funcionar, eu estava na rua. Quando cheguei em casa, descobri que o controle da nossa Apple TV também não estava funcionando. No dia seguinte, meu fogão de indução também não ligava mais.

Parecem coisas chiques, né? Não sei se eu usaria a palavra “chique” mas com certeza usaria a expressão “coisas de muita qualidade”. E ainda posso completar te contando que todas essas coisas foram compradas depois de muita pesquisa e usando e abusando das BlackFridays e demais oportunidades de pagar menos.

Meu marido e eu pesquisamos, economizamos, adquirimos essas coisas e cuidávamos muito bem delas há anos exatamente porque a grana estava curta. Então, como é que a gente iria pagar pra repor tudo isso agora?

Eu me senti encurralada, como se o universo estivesse brincando com a minha sorte e tirando de mim o pouco que eu ainda tinha. E não foi a primeira vez que eu me senti assim.

Meu celular quebrou num sábado, meu fogão num domingo e durante toda a semana seguinte, eu tentei me virar nos 30 pra cozinhar pra minha família usando apenas o forninho elétrico e a fritadeira – outras aquisições que ficaram meses marinando na minha lista de compras e só foram adquiridas depois de muita pesquisa.

Já deu pra sacar que todo gasto é muito bem planejado aqui em casa porque a nossa renda se encaixa como um lego nas nossas despesas, né?

Pois é.

Na semana pós quebra do celular e fogão – eu consegui ressuscitar o controle molhado da Apple TV no arroz – cada pedacinho da minha rotina não funcionava bem porque as coisas que quebraram afetaram diretamente o meu dia a dia.

E foi nessa semana tensa que eu fui percebendo uma realidade bem feia para o jeito desapegado que eu escolhi viver: eu estava apegada aos meus objetos.

Eu, que me considerava a senhora desapego, estava sofrendo por estar apegada.

Entendeu porque eu disse que estava confusa no início desse texto?

É uma sensação muito bizarra ser confrontada com as nossas crenças inconscientes.

Mas até hoje, essa foi a única forma usada pelo universo que realmente funcionou para me ensinar alguma coisa.

Foram nos momentos em que eu me senti encurralada e sem controle algum da situação que eu mais aprendi e amadureci.

Mas não se engane: quando eu estava vivendo o momento de sofrimento, eu não conseguia enxergar uma oportunidade de crescimento. Eu só queria que tudo acabasse logo.

Era depois que acabava, depois de eu me sentir péssima e sozinha, depois de respirar bem fundo e decidir levantar do chão que esse raciocínio – que exige lógica e não emoção – ia se formando na minha cabeça e eu começava a entender a necessidade de tirar um aprendizado do que me aconteceu.

Meu celular quebrar me lembrou do que eu senti em outro momento da minha vida, um momento que me feriu mais profundamente mas também me tornou muito mais forte, e eu falei tudo sobre esse período quando ele aconteceu, começando por esse post aqui.

Esse texto pareceu um pouco intenso demais pra você? Bom, então seja bem vinda a forma como a cabeça de uma pessoa ansiosa funciona.

Você se identificou com esse texto? Então eu fico muito feliz de encontrar uma outra pessoa ansiosa do outro lado da tela e espeto que a gente possa usar essa canal aqui pra se ajudar.

Ah, e caso você esteja se perguntando se eu consegui arrumar meu fogão, não, tivemos que dar um jeito de comprar outro.

E sabe o que mais aconteceu? No final dessa mesma semana, meu marido recebeu um aumento de salário.

Que maneira interessante que o universo usa para antecipar uma coisa boa, não?

Um abraço e até semana que vem.

Mila.